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                As suas margaridas já secaram. Juro que cuidei delas exatamente como você fazia. Talvez seja a temperatura, o verão está pegando pesado esse ano. Talvez seja minha inabilidade de cuidar de alguém. Talvez sejam elas que não consigam viver sem você. Ultimamente tenho duvidado bastante se eu consigo. Sim, eu sei que isso soa dramático, mas você sabe o quanto eu detesto dramas, sendo assim não revire esses olhos azuis e acredite, é verdade. Talvez faça realmente um ano que você foi embora, mesmo que meu calendário e nossos amigos insistam em afirmar que faz ‘apenas’ trinta dias. Você sabe que desde que você partiu eu risco os dias no seu calendário de bebês vestidos de gatinhos? E ele não me parece mais tão estúpido.
                 Dizem que contar os dias pode ajudar, para mim, parece indiferente, mas não estou mais em posição de ser cético. Você iria rir disso (detestava meu ceticismo) daquele jeito que faz sua covinha do queixo criar uma covinha no meu coração. Como amava essa covinha. Como amava você. Aliás, como amo... Uma secretária entediada que escrevia seus contos em bloquinhos minúsculos, que abandonou sua cadeira e sua tranquilidade para ajudar o entregador desastrado e geralmente tão mal humorado. Você sorriu e lhe ofereceu uma xícara de chá de maçã. “É o melhor de todos!” Ele duvidava muito, mesmo assim, não podia resistir a ela. Adorou o chá, assim como todas as esquisitices dela, o nó que dava no cabelo quando precisava se concentrar, o jeito como ficava linda com as camisas dele, grandes demais para o seu corpo pequeno, as danças sem música, os livros sobre anjos, a paixão por demônios. Você sempre gostou de casos perdidos, não é? Eu era o caso típico, perdido. Você me achou. E agora eu te perdi. O problema? Amor.
                 Sim, amor. Eu não fui ‘feito’ para isso. Você concordaria, beijaria minha têmpora e diria que o amor não foi feito pra ninguém, e, ao mesmo tempo, para todos. Superestimado, cheio de clichês, mas simples, imprevisível, sem forma certa. Queria ter pensado assim. Ter entendido que o que tínhamos era perfeitamente suficiente, que tivesse nos deixado levar e não me perder nele. Eu precisava ser melhor, você merecia o melhor. Mas como alcançar se a cada piscada sua eu tinha certeza que você era a melhor coisa do mundo? Eu caminharia o milhas, seria o babaca daquela história que você gostava que ia no céu buscar uma estrela para a mulher que sempre queria mais. ‘Ok, ela é uma vaca. Mesmo assim você não pode negar que é lindo.’ Podia negar sim, não era saudável, ele precisava amar menos. Eu precisava amar menos, ou nunca iria me contentar e te perderia. E não é que foi cumprindo meu plano que te ‘deixei’ ir?
                 Não pense que foi fácil ignorar todo o deslumbre e paixão que sentia por cada passo seu e quebrar o meu amor em pedaços, tão pequenos que mais pareciam legos, me desconstruí, tranquei as peças em gavetas fortes, protegidas por fortes camadas de indiferença. Com o tempo, elas pararam de incomodar. Aquela fagulha que me queimava a cada olhar aos poucos parecia branda. Hoje sei que era porque você já nem me olhava mais. Tinha criado sua própria barreira contra mim, logo você que era sempre tão livre... Eu sinto muito, querida. Seus quadros não terminados ainda estão no mesmo lugar, as margaridas secaram, eu sequei. Fui ao fundo de mim e de nós implorar por chuva. Choveu. As gavetas abriram e as peças minúsculas do meu amor caíram no tapete. Com elas construí uma casa, pequena, com balanço na varanda. Eu sei o quão egoísta isso soa e quão típico de quem perde e aprende a dar valor depois isso é. Mas é simples. Superestimado, cheio de clichês... assim como eu, mas você sempre teve uma paixão por casos perdidos. O que muda dessa vez é que eu mesmo me encontrei e, dentre todas as coisas que fiz, acho que te amo melhor agora.


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