1973




As luzes ainda brilham, tanto quanto brilhavam antes. Talvez menos, já que elas não refletem mais nos seus grandes olhos azuis. Na verdade, as luzes com quem compartilhei os melhores momentos da minha vida, atualmente parecem me deixar patético. Provavelmente por não ter mais nossos vinte anos e aquela esperança de que todas as noites iguais seriam diferentes. Você já perdeu aquela esperança? Espero que não, consigo te imaginar, seja lá onde quer que você esteja, sorrindo para a noite e para todas as histórias que ela irá trazer. Você ainda escreve? Pergunta idiota, desculpe. Você sempre irá escrever, sua alma pertence às palavras. Você não deve saber, mas eu ainda tenho cada um dos textos que você escreveu para mim: o do dia em que nos conhecemos, de todas as vezes em que você queria me bater forte por não saber dizer como me sentia em relação a você, os que você contava nossas coisas tão banais como se fossem um filme romântico/alternativo, todos os ‘eu te amo’, ‘eu aceito/caralho nós vamos nos casar’ e, finalmente, ‘me desculpe, eu não posso mais’. Você quebrou meu coração, Lily.  

‘Ela quebrou meu coração’. Quatro palavras. Tão pequenas. E tão difíceis. Foi preciso quinze anos, dois casamentos mal sucedidos, três terapeutas e incontáveis garrafas de uísque para conseguir assumir que sim, você me destruiu. E não foi porque me deixou, na verdade, o que fez com que tudo fosse tão difícil e eu me transformasse nesse cara de terno com olhar distante, bebendo em um clube no qual garotos que podiam ser nossos filhos estão tomando seus primeiros porres e dando seus primeiros beijos é que você esteve aqui durante esses quinze anos. Consigo imaginar sua testa franzindo e seus lábios se inclinando, daquele jeito que me fazia pensar se você ia gritar, me beijar ou cair em prantos. Nunca saber o que esperar; uma das coisas que eu mais amava em você, uma das coisas que você mais detestava em mim. E sim, eram duas coisas completamente diferentes. Desculpe comparar.

Você sempre foi intensa, tão confortável e ciente de seus sentimentos... Eu olhava para você e sentia que era a pessoa mais incrível que eu já tinha conhecido, você não tinha medos. Dançava com o escuro, não se importava em gritar aos quatro ventos e abrir seu coração e seus pensamentos para um garoto que ao primeiro olhar não tinha nada a ver com você, um idiota que mal conseguia olhar em seus olhos sem desviar. Desde o primeiro dia em que nos conhecemos, você me entregou tudo que tinha, foi um terremoto, destruindo minha casa tão segura e espalhando os livros da cabeceira que eu prometia que ia ler um dia. Eu? Bem, você sabe que eu nunca soube falar muito, meus sentimentos sempre foram parecidos com aquela boneca russa que tinha mais dezenas de bonecas uma dentro da outra, camadas e mais camadas. Hoje consigo entender quando você me puxava e perguntava se eu nunca iria te deixar ver a última parte, aquela que não se separa, a última boneca, minúscula, mas sólida.

Eu nunca te deixei entrar, assim, quem te quebrou primeiro fui eu. Não que estejamos competindo, me desculpe, mas se pensarmos positivo, com meus silêncios talvez eu tenha te poupado de muito trabalho. Seriam anos difíceis e eu tenho quase certeza de que você não foi uma dessas pessoas amarguradas remoendo lembranças, é claro que você deve lembrar de mim quando toca nossa música, ou garotos usam meias até o alto das canelas ‘Me diz, Alex, qual o propósito? Eu te amo, mas isso é tão feio! Se você sente frio nas pernas, por Deus, use calças!’, praticamente posso ouvir sua risada. Será que é sua risada mesmo? Já se passaram tantos anos, Lily, eu carreguei suas lembranças por boa parte desse planeta, em todos aqueles lugares que você queria conhecer e eu sempre pensei que podia deixar para depois, que às vezes acho que as lembranças que eu guardei foram se perdendo pelo caminho.

E então estou aqui. O letreiro em neon azul diz ‘1973’. Quem dera. As luzes parecem as mesmas, as músicas, mais agitadas. Eu, bem mais velho e um pouco mais capaz de compreender meus próprios problemas. Você, bem, eu não faço ideia de onde você está, espero que feliz, sorrindo com as covinhas, mas também com os olhos. Não se surpreenda, nesse meio tempo aprendi o quanto os olhos falam e você tinha razão, é mesmo incrível. Sinto muito por não ter visto enquanto ainda tínhamos tempo, mas tudo parece ter passado tão rápido que se fechar meus olhos sinto como se fosse outra noite de domingo, em que você pegava minha mão e dizia ‘lá vamos nós de novo’. E, na verdade, por mais que o tempo passe, mesmo que de forma cruel e eu não consiga mais lembrar sequer seu nome, é onde nós estaremos, em um clube, em 1973.

3 comentários

  1. Such a beautiful photo! :)

    www.ensembledeux.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Coisa mais lindahhh!!!

    ResponderExcluir
  3. Lindo lindo lindo

    ResponderExcluir